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Chile e a revolta intelectual

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Multidão de alunos no Chile

Essa multidão que você vê na foto são os estudantes chilenos fazendo valer sua voz pelo terceiro mês consecutivo.

Há uma grande diferença entre o Brasil e o Chile, que não baseia-se apenas em língua, etnia, tamanho, entre outas coisas óbvias. É a diferença intelectual. O Chile tem um histórico de intelectualidade e cultura que ultrapassa o Brasil com folga.

Prova disso é que enquanto aqui no Brasil os estudantes ou estão totalmente apáticos ou então falam pouco sobre os problemas de nosso sistema educacional, os chilenos vêm dando exemplo de como se melhorar a educação na marra e na garra. Há três meses que os estudantes e até professores chilenos estão na rua brigando por seus direitos. Três meses que eles aguentam firmes nas ruas, nas escolas, e apenas esperando por uma proposta aceitável. Três meses, será que temos noção de quanto tempo é isso para um protesto? Por certo que não, já que não presenciamos protesto algum de tamanha magnitude há muito. E não vale dizer caras-pintadas – como se ninguém soubesse da manipulação que houve. E ainda que alguns possam estar apenas por seguir o grupo, pelo calor do momento, pela sensação de fazer parte de algo, ainda assim, lá eles estão. E há também a família, as crianças, os trabalhadores. Estão todos envolvidos, os verdadeiros patriotas. Amor à nação não é lembrar que é brasileiro quando a seleção joga, ou só quando há grandes eventos esportivos em alta, mas lutar por melhorias. Quem ama um país de verdade não ignora seus defeitos, mas ajuda a consertá-los.

E além de todos estes fatos interessantíssimos, há um fato adicional que deveria causar vergonha a nós brasileiros: a educação chilena é melhor do que a do Brasil. Mesmo que eles tenham uma ótima educação, comparada com a do Brasil, veja só onde eles estão. Na rua. Parece incrível para nós, porque a nossa geração não sabe o que é reclamar. Reclamar que a televisão que o Governo deu às escolas é feia, que o uniforme é antiquado, do professor que deu nota baixa, isso não é reclamar. É chorar pelas migalhas inúteis que caem ao chão enquanto o pão já está mofado. Não temos a faca, não temos o pão, não temos o queijo, não temos nada. E ainda assim estamos felizes com a situação, e apenas temos o prazer de reclamar quando as coisas ficam mais difíceis para o nosso lado, ameaçando nosso estado de preguiça.

Não quero soar hipócrita, e acredito que não estou sendo.  Eu estaria na rua, estaria no grêmio estudantil, estaria atuando se eu achasse que valeria a pena. Não há apoio, não há interesse, não há alunos dispostos a perder um capítulo da novela para melhorar as coisas. Acham que é muito melhor deixar as coisas como estão, já que nem estão assim tão ruins e nós ainda temos meia-entrada no cinema, imagina só? Ir pra rua, chegar cansado em casa, não ter tempo de entrar em uma rede social qualquer, e tudo isso pra quê? Para sermos mais cobrados na escola? Para termos uma conduta mais rígida e produtiva? Não, isso só nos traria problemas.  E não queremos isso, não é?

Todos sabem que é assim que eu penso, então não corro o risco de ser uma revolucionária de computador. Não espero criar uma revolução a partir de um blog. Não espero nem que haja uma revolução dentro de cem anos. Não é uma revolução que quero. Acordar um pouco do sono induzido, é só isso. Desde que as pessoas comecem a pensar, já é um começo.

Mãe e filha protestando

Mãe e criança também entram na dança. Não só os estudantes secundaristas e universitários se preocupam com o futuro da educação.

(Aliás, que não me venham dizer os afiliados de movimentos estudantis existentes que há luta, e que eu é que não vejo. Novamente, a luta não deve ser apenas para a condição do bolso dos alunos mas, sim, da cabeça. É lá que fica tudo. É simplesmente inútil e estúpido enaltecer uma ideologia furada e irreal (como o socialismo) enquanto se bebe uma bebida cara todo fim de semana. É extremamente pedante ficar pedindo socialismo na frente do computador (um computador novo, claro), aproveitando dos bens do capitalismo. Além de estúpido e pedante, é fácil. Não enalteço o socialismo, não concordo com isso, e o que eu faço economicamente condiz com o que penso dentro dos limites do possível. Enquanto o pseudo-revolucionário de esquerda se acha superior por sê-lo, faz pouco além de fingir que é algo. [Sair para as ruas pedindo diminuição da passagem do ônibus, o que ainda é visto mas em pequena quantidade, é válido, sim, com certeza; mas não é tudo.])

Convido-vos a pesquisar mais sobre o que está acontecendo no Chile. Esta é uma página bem mais pessoal do que de informações. E mesmo sabendo que tudo o que eu diga não vai adiantar em nada, eu continuo a dizer. Mesmo sabendo que haverá talvez uma ou duas leituras rápidas seguidas de um esquecimento, eu falo. Falo só para ter a consciência de que, por mais arrogante, inútil ou hipócrita que pareça, eu ainda assim disse.  Na escola, na internet, em casa, com os amigos, em qualquer lugar.

Mas uma andorinha só não faz verão. Uma andorinha só fala sozinha.

Sim, UNE, essa á pra vocês.

O pior ainda é saber que isso é a mais pura verdade.

PS: Espero que o futuro destes estudantes não seja o futuro dos outros estudantes que protestaram décadas atrás: acabar no mesmo governo fazendo as mesmas coisas que antes criticavam. “Oremos”.

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Sobre Carol S.

Pensei em coisas que poderia dizer sobre mim. (Só pensei, mesmo...)

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