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Arquivo do autor:Carol S.

o que é, o que é?

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Seria a nossa época, o nosso regime econômico, nossos costumes ou apenas um costume de ser jovem? Esta confusão que nos assola, será que assola apenas a mim? E, se sim, por que a mim, e não a quem me vê? Porque não aos outros?

O que é, o que é, que tira nosso sono e vontade?

E se nada for? E se for devaneio, se nos consome tanto, ao corpo inteiro, mas no fundo nada é e nada nunca foi? E se for frescura, coincidência, ou alguma dessas coisas que acontecem e não se deve dar atenção?

Se houver algum irmão por aí, que levante a mão e se manifeste.

(texto escrito em 23 de maio de 2012)

Barcos e flores de gente

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Corri e andei. Procurei em lugares estranhos por coisas que não sei bem o que eram; talvez todas fossem você. À beira do precipício, meu corpo enfrentando o mar, seu barco me encontrou. O mesmo barco de sempre, remando em novos mares. Talvez também estava perdido – ou estava ali para encontrar?

Seus braços me alcançam e eu vou no escuro… Sem medo de tropeçar, vendo mais do que se quisesse ver. Não preciso de luz, ele já é a luz; suave, nada incômoda, quente. Quente como o sol que é para mim.

Sente-se ao meu lado. Sente-se no trono que fiz, das pétalas de minhas próprias flores. Quanto tempo tomou para ficar pronto, e agora que está, é só seu. Sente-se, deixa-me ouvir sua voz… O amanhã não existe, até onde sei. Ontem está tão longe que não lembro mais. Só há você e eu, o silêncio e o escuro, e as cores do nosso amor.

Julieta

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Sort of the place I had in mind when writing this short story.Meus olhos já estão fechados, mas os tapei também com minhas mãos. Não posso mais ouvi-la, mas sei que estava aqui. Sinto seu cheiro, se é que tem cheiro…

Vá embora. Por favor, se puder me ouvir, vá embora. Vá embora!

Não sei há quanto tempo estou aqui, sentado no chão, protegendo-me de nada.

Acho que agora ela está mais perto, tenho vontade de chorar. Ela sempre me dá vontade de chorar. Julieta… Por que? Você não precisa fazer isso, minha querida. Se puder me ouvir, vá embora.

Já deve ser tarde. O que diabos estou fazendo aqui? Chega. Esteja ela lá ou não, eu vou para a minha cama. Temo que esteja… Mas o corpo dói, e não serei intimidado dentro da minha casa. E intimidado por Julieta! Que besteira.

Eu me envergonho em admitir: não parei em lugar algum antes de chegar na cama. Não fui ao banheiro, ou comi, ou tomei água, por medo de Julieta… Eu sei que você está aí, eu sei! Fecho os olhos, e meus pensamentos se acalmam, já tenho sono… dormirei logo… Sem Julieta.

Na madrugada, acordo para ir ao banheiro. Ledo engano, “dormirei sem Julieta”. Acordo, e seus olhos grandes e cinzas me fitam, como se estivessem ali, me fitando, desde o momento que fechei os meus. Vá embora, eu sei que você sabe que eu quero que você vá. Então para que serve essa teimosia, Julieta? Me deixe!

Não consigo mais dormir. Vou ser obrigado a conversar com você, é isso? Que seja, Julieta, que seja. Tenho tempo para conversar. Sempre tenho tempo para conversar com você…

– Julieta…

– Sim.

– Está fazendo o que aqui, ainda?

– Estou na minha casa.

– Pois esta é a minha casa.

– É minha, também.

– E se eu sair daqui? Eu vou, tudo bem? E aí você me deixa?

– Nunca vou te deixar. Você nunca vai me deixar te deixar, e nem pode.

– Por que eu não deixaria?

– Não consegue me deixar, menos ainda esquecer.

– Ah, consigo. Já esqueci ant…

– Eu sei. Você superou namoradas, amores, paixões que não deram certo, amigos que te esqueceram… E vê que foi até fácil. Não pareceu, no início, mas foi; só não pense que comigo também será. No momento que você morrer, eu estarei lá. Quando suspirar pela última vez, será para mim. Sou o seu futuro. As pessoas passam, mas eu fico; não há outra opção. Não escolhemos que fosse assim, mas é. Se você quiser fugir, eu terei de querer também, e teremos de fugir juntos. Não há escapatória.

– Você não me convence com seu discurso intenso.

– Sabe que convenci! Sabe que é verdade! Eu sei, eu conheço mais a você do que você mesmo.

– Impossível.

– É tanto possível quanto é verdade. Eu sou sua e você é meu, meu Romeu, ainda que isso faça com que você se esconda atrás dos móveis.

– Meu nome não é Romeu.

– E nem o meu é Julieta! E isso faz diferença?

Não. Não faz diferença. Sei que não, Julieta…

– Eu não posso ir embora. E você também não. Não faça as coisas serem mais difíceis do que são, como é do seu costume… Só aceite a minha presença.

Ficamos quietos, apenas olhando. Não sei que sentimento há entre nós. Eu não tenho muito tempo, e sei disso. Sei que é por isso que você apareceu assim que tudo começou a piorar; para me preparar, me ajudar. Mas eu quero aproveitar! Tão pouco tempo e tanta vida! Tanta felicidade, tanto sofrimento, a delícia de estar vivo… Com dores, mas vivo. Eu quero aproveitar. Eu quero aproveitar?

Em alguns minutos de silêncio, juntei a coragem que tanto me faltou.

– Eu quero me juntar a você. Eu vou me juntar a você, Julieta.

– Não, não posso te obrigar a isso. Não posso e nem quero. Eu espero. Viva a sua vida, eu espero.

– Para que esperar? Agora não faz mais diferença. Eu quero ver o mundo com você, é a única chance que tenho de vê-lo. Não pode ser agora?

– Isso é precipitado demais.

– Ah, agora é precipitado? Não!

– Poderemos ver o mundo, eu poderei, finalmente. Mas agora? Agora não falta tanto. Espere mais um pouco…

– Não! Nada vai mudar, Julieta, nada. Eu vou morrer, e isso é certo.

– Você não sabe quando.

– Mas você sabe. Não me faça sofrer mais do que preciso.

Ela sabe. Seus olhos e seus cabelos translúcidos sabem. E eu sei também, Julieta! Posso ver através de você.

Fui até o escritório, deixando-a sozinha. Ela me seguiu, como esperei que fizesse. Durante todo o tempo em que escrevi as cartas, Julieta as inspecionava por sobre meu ombro.  – Não faça isso.

– Eu já me decidi.

– Não faça isso!

– Não faça isso, VOCÊ! Vamos, Julieta. Me ajude.

Ela me indicou o caminho até o banheiro, e pediu que eu enchesse a banheira.

– Tem certeza que é a melhor maneira?

– Não, nunca fiz isso antes. Não se preocupe, eu vou estar ao seu lado. Eu o ajudarei. A não ser que… que você não queira.

Fitei seus olhos espectrais, sem mágoa ou cinismo. Penso em todos os olhares que me formaram: orgulhoso e amável em meus pais, fraternalmente provocador em minha irmã, os olhos sorridentes dos meus amigos – tantos olhares significativos! E o seu olhar, Julieta, o último, que agora me acolhe na eternidade.

Adeus, mundo velho.

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Vocês, já regozijando o fim do mundo, sentem bem suas bundas em seus respectivos sofás e cadeiras, pois a novidade que tenho para contar pode não parecer, para alguns, do melhor cunho.

Ei-la: o mundo não vai acabar.

Pode lhes parecer chocante à primeira vista, mas resistam à tentação de não desacraditarem e aceitem que, feliz ou infelizmente, o mundo há de continuar seguindo. Admira-me que no século XXI ainda há pessoas que tomam profecia acima da ciência, e até mesmo alguns “ateus”; não que a ciência esteja sempre certa, mas relaxem, meus camaradas, não é nesse ano que viramos todos poeira. 

Tendo dito isso, já está mais do que na hora de vocês começarem suas listas. Já está mais do que na hora de mentir que vão emagrecer, aproveitar a vida, andar de bicicleta, comprar menos sapatos, serem menos rabugentos ou qualquer outra coisa. E enquanto estiver nisso, aproveite para, quem sabe, mudar seus hábitos hoje, apenas mais um dia no calendário – porque, veja, primeiro de janeiro também é isso, apenas mais um dia no calendário.

Eu, por exemplo, tentarei postar mais. Ainda que ninguém leia, há de se deixar algo a ser lido quando o mundo acabar.

Uvas anônimas

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Passeava por entre as gôndolas de um supermercado qualquer, repleto de luz e sacos de plástico, quando o viu. A reação foi instantânea. Escondeu-se no corredor no qual se encontrava e esperou pacientemente que ele passasse, sem vê-la. Esperou mais alguns segundos e seguiu com o carrinho de compras para o açougue. E quem mais poderia estar na fila – olhando justamente para a sua direção naquele momento – senão…

No meio de sua tentativa patética e frustrada de dar meia-volta, ele a chamou.

– Ei!

Ignorou. Provavelmente não era com ela, mesmo. Nunca era.

– Ei! Eu estou falando com você.

Virou-se lentamente:

– Oi, é comigo?

– É sim.

Silêncio.

– Eu só ia pedir… Eu sei que…

Seu coração acelerou. Era ele, conversando com ela. Finalmente! Será que seria agora, o esperado momento? Assim, no açougue do mercado? Melhor do que nada, claro… Era agora!…

-…é estranho, mas eu queria saber onde você comprou esse pacote de uvas. Eu não consegui achá-los em lugar nenhum hoje!

– Ah… – sentiu seu coração parar e voltar aos pouquinhos, os olhos já quase perdendo a vontade de segurar as lágrimas – era o último pacote.

E o silêncio, novamente.

– Você quer levar? Eu não gosto muito de uva, mesmo.

– Não, que é isso, imagina. Obrigado, de qualquer forma.

Tirou o pacote do seu carrinho e colocou no dele.

– Fique com o pacote.

– Obrigado.

– De nada.

Deu meia-volta, dessa vez com sucesso, e foi direto ao caixa. Até esqueceu de comprar carne, até esqueceu que carne ia comprar. Carregou sozinha as poucas sacolas até sua casa, onde entrou também sozinha, e passou a noite sozinha, seguindo-o na surdina por todos os cantos que as redes sociais permitiam.

(E as uvas não tiveram mais o mesmo gosto…)

Cumulonimbus over my head

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Adoro nuvens, e por vários motivos. Elas estão no céu, e o céu é uma das coisas que mais adoro no mundo (na lista estão o céu, o mar, bosques e labirintos, entre outras coisas).

Não é dessa adoração que falo agora. Cumulonimbus é um tipo de nuvem (sim, há tipos delas), e as palavras, provenientes do latim, poderia ser entendidas juntas como “chuva acumulada”. E me encanta por ter chuva, nuvens, e carregar, além de água, o significado de acúmulo.

Por muitas vezes o tempo chuvoso é culpado pelo mau humor das pessoas; não vejo o por que, já que tais cumulonimbus apenas acalmam os pensamentos dos que estão cá na terra. Inclusive, acredito que se uma chuva caísse agora por aqui muitos de nós ficaríamos animados. E, se não muitos, ao menos eu.

O acúmulo de falta de coisas, não relacionado à cumulonimbus de maneira alguma, mas ainda assim presente, é o que pede ao bom humor que descanse, que chama ao serviço as preocupações pequenas e inúteis e acorda as paranóias, que já estavam quase a adormecer. É esse acúmulo de falta de coisas importantes e interessantes que deixa as coisas caírem, mas não como a chuva cai. Não de forma despretensiosa e natural. Ou talvez seja natural presenciar um estado da diminuição do aumento de ânimo de vez em quando…

Sei que a ausência de calor faz frio. E trocaria o calor do ambiente por outro calor que, agora tomado pelo frio, poderia tornar-se então calor.

Espero que chova, e em breve. Deixemos de lado as metáforas presas à última frase: apenas espero que chova, chuva de verdade. Que acalme esse maldito calor que toma conta do glorioso inverno. Ou será inferno? Já não sei, porque o único frio que sinto vem das ações humanas. E talvez até de mim, por que não? Em contrapartida jogo a culpa adiante, defendo-me ao dizer que apenas respondo de intensidade igual à frieza alheia, ou que espero, sendo fria, fazer o frio voltar. Minto, mas talvez não. Aliás, toda mentira é relativa, e essa também pode o ser.

Espero discreta e silenciosamente, olhando de viés e agindo de pouco em pouco até a situação se tranformar. A chuva talvez não chegue. Não digo que estarei preparada nem que me pegará de surpresa: saber que acontecerá (ou não acontecerá) não me previne de sentir, mas ao menos abstém de surpreender-me com o copo menos que meio vazio.

 

UPDATE: choveu, e muito. Continua a chover, de quando em quando. O frio está voltando, provavelmente por pouco tempo, mas está. E como já era esperado, o outro frio continua… Sem esperanças de ir embora.

Notas

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O que há em sua ausência que desperta em mim tão austera tristeza?

É a ausência de luz que causa escuridão.

——

Espero

[sento

Continuo a esperar

[e então a chorar

Lá ou aqui,

nada é meu lugar.

O choro que vira alegria

não virou

[o joio ao trigo se juntou

O frio que acalenta

agora é quente, ardente

[e vejo-me derreter

Os olhos de porto seguro

agora me são olhos

[de tiro no escuro

Antes era no domingo que me contia

agora domingo é todo dia.

—–

Quando vejo-me pequena, me dói.

Quando alguém acima de mim chama-me pequena, também há dor.

Já quando vem de alguém menor do que eu,

não vejo porque ligar.

—–

Estas são algumas das coisas que eu encontrei no meu bloquinho de notas. Espero que gostem.